
São mais de 1.300 os blocos de betão que compõem o sistema de recifes artificiais que acaba de ser instalado na costa nazarena
Os projectos de monitorização do canhão da Nazaré e de instalação dos recifes artificiais ao longo da enseada não vão passar ao lado dos pescadores locais. Pelo menos é essa a intenção do Instituto Hidrográfico e do Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR), que no passado dia 2 de Outubro estiveram reunidos com a comunidade marítima nazarena, cujos agentes querem ver activamente envolvidos nos dois projectos.
O outro grande projecto em curso na encosta nazarena é a instalação de recifes artificiais. Recentemente foi dada por concluída a colocação de 1.365 módulos de betão no fundo do mar, a profundidades que variam entre os 23 e os 35 metros, seguindo-se agora um período de monitorização da evolução do sistema recifal.
O biólogo do IPIMAR, Miguel Neves dos Santos, deixou claro que “os recifes artificiais não são do IPIMAR nem da Câmara Municipal”. Dirigindo-se aos pescadores, agentes ligados às actividades marítimo-turísticas e representantes de entidades do sector presentes na sessão, o biólogo disse: “são para vocês e, por isso, têm vocês de ser os primeiros a bem gerir este sistema”.
Para que o projecto tenha sucesso, é fundamental que a comunidade piscatória se envolva. A sua participação passará pelas campanhas de monitorização e, sobretudo, por não pescar na área dos recifes enquanto decorre o período de crescimento de vida no sistema. A actividade piscatória na zona deve ser evitada ao máximo porque “é preciso dar tempo para que os habitats possam crescer”, apontou Miguel Neves dos Santos.
Nesse sentido, os pescadores já decidiram que a pesca nesta área poderá ser interditada durante pelo menos dois anos. Reunidos com membros da autarquia no passado sábado, dia 9, os pescadores mostraram-se disponíveis para colaborar num projecto “bom para todos, se todos souberem respeitar a decisão”, sublinhou um dos homens do mar.
Na ausência de diplomas legais que impeçam a actividade piscatória na zona, o período de defeso terá que ser criado de forma voluntária e só será respeitado se a comunidade piscatória estiver sensibilizada. Para que isso aconteça, vai circular pela comunidade um abaixo-assinado que depois será entregue às entidades competentes, a dar conta da necessidade de evitar a pesca durante um período mínimo de dois anos.
O projecto de instalação de recifes implica um investimento de cerca de 2 milhões de euros, dos quais 75% provêm de fundos comunitários. O financiamento do Programa Operacional da Pesca 2007 – 2013 foi, de resto, o que atrasou o projecto, no qual a autarquia começou a trabalhar há cerca de três anos.
Agora que os blocos de betão estão finalmente colocados no fundo do mar, entre a zona da praia do Salgado e a foz do Rio Alcoa, o presidente da autarquia nazarena, Jorge Barroso, aponta que “a gestão tem que ser feita em conjunto com todos os que operam no mar”. É preciso “um trabalho de proximidade que tem que acontecer para que este investimento dê os melhores resultados em prol da comunidade piscatória”, sublinha o autarca.
“Uma filosofia de melhor pesca, em vez de mais pesca”
Os critérios de gestão do sistema de recifes vão ser discutidos em diversas reuniões com pescadores, associações do sector da pesca e agentes económicos ligados às actividades marítimas. Quando o período de estabilização e monitorização chegar ao fim, os recifes artificiais deverão levar a um aumento da produção biológica e da diversidade das espécies. Proporcionando abrigo para os juvenis, os recifes promovem a sustentabilidade dos recursos e a revitalização do sector da pesca local.
Já no passado mês de Agosto, quando se iniciou a colocação dos blocos, Jorge Barroso salientava à Gazeta das Caldas que este projecto obedece a “uma filosofia de melhor pesca, em vez de mais pesca”. O edil acredita que os recifes são uma oportunidade para “valorizar a actividade da pesca, associada ao turismo e à gastronomia”, ao mesmo tempo que consiste numa mais-valia para os pescadores.
Bóias do Monican terão que ser recolocadas
Quanto ao Monican – a monitorização do canhão submarino da Nazaré –, soube-se na sessão que as duas bóias que tinham sido fundeadas terão que ser recolocadas durante este mês de Outubro, depois de em Julho a amarração de uma ter sido acidentada e de a outra ter estado à deriva em Agosto. De acordo com o biólogo João Vitorino, do Instituto Hidrográfico, uma das bóias poderá ser deslocada na zona norte da cabeceira do canhão para a zona, mais a sul, onde foram instalados os recifes artificiais, de forma a transmitir informação que possa também ser útil ao projecto. E para que a sua localização não interfira com a pesca, deverão ser os pescadores a indicarem qual o melhor local.
Depois de recolocadas, as bóias multiparâmetro voltarão a monitorizar, em tempo quase real, a meteorologia, a corrente e agitação marítima e a qualidade de água, completando a informação que já está a ser recolhida via satélite. A sessão do dia 2 de Outubro possibilitou ainda que fosse discutida qual a informação mais útil para os pescadores e que o projecto permita recolher, tal como a necessidade de facilitar o acesso aos dados, que para já estão disponíveis para consulta em http://monican.hidrografico.pt.
Joana Fialho
jfialho@gazetacaldas.com






















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